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Interpretação e incubação de sonhos

(*) Joston Miguel Silva

 

Uma pequena enquete informal  revela que quatro em dez pessoas lembram de seus sonhos. Dentre os que lembram dos sonhos, uns poucos os têm completos e alguns destes os registram ou os relatam aos outros, e vão atrás dos dicionários e revistas sobre os significados dos diversos símbolos que neles aparecem. Para isso, hoje pode-se inclusive recorrer à Internet.

 

Quatro em dez significa realmente quarenta mil  em cem mil pessoas, ou seja, há uma quantidade enorme de interessados em conhecer sobre os seus sonhos.

 

Em 1879, a Psicologia foi considerada uma ciência, graças a Willem Wundt que afirmava: a Psicologia estuda a mente consciente com seus fenômenos de pensar, lembrar, raciocinar, imaginar e sentir emoções, não tendo, portando, o objetivo de estudar a alma, esta sendo definitivamente deixada às religiões.

 

Em 1900, com o livro A Interpretação dos Sonhos , Sigmund Freud  afirmava o equívoco de se estudar apenas a mente consciente ou objetiva, uma vez que o mais importante é a mente inconsciente ou subconsciente calculada como ocupando 8/9 da mente total. Freud fez isso com base exatamente nos próprios sonhos e nos de seus inúmeros clientes, onde ele encontrou as bases de um processo de análise a que chamou de psicanálise.

 

Formado em Psicologia nos idos de 1966, as idéias de Freud empolgava e ainda empolga grande parcela dos estudantes e profissionais da Psicologia. Contudo, em 1913 apareceu o irreverente James Watson afirmando que a mente com os sonhos e seus fenômenos subjetivos não são objetos diretamente observados, não merecendo, pois, considerar-se como ciência legítima qualquer estudo sobre eles. Apenas o comportamento em seus aspectos motor, emocional e verbal ostensivo ou encoberto pode ser fotografado, filmado e objetivamente avaliado. Nascera o behaviorismo, uma abordagem que empolgou a comunidade científica e abalou as bases da Psicologia vigente em suas ramificações, que, para sobreviver, enquistou-se sob a forma de escolas altamente corporativistas.

 

Desgostoso com a elevada quantidade de inferências logicamente estruturadas, mas sem evidências experimentais e estatísticas, abraçamos o comportamentalismo que evoluiu para incluir a cognição só acessada através de comportamentos verbais mais ou menos estruturados, porém sempre objetivos e passíveis de registros observáveis.

 

A abordagem behaviorista vem sendo empregada em todas as áreas da Psicologia e os sonhos não poderiam ficar fora dela. Um dos grandes avanços da Psicologia objetiva ou comportamental, antes muito quantitativa e confiante em análises estatísticas, foi fundamentar-se no critério qualitativo, colocando cada indivíduo como referência em si e por mesmo. Assim, o que tem valor é o que pessoa fala,diz que ouve e diz que sente, pois tudo o mais depois disso é suposição, inferência ou construção teórica. Vive-se hoje a mais completa aceitação dos comportamentos verbais ostensivos e emocionais, registráveis  com o polígrafo e outros instrumentos, fugindo-se de inferências, construtos teóricos e suposições. Há aqui o completo respeito ao repertório comportamental da pessoa, ou seja,a todo o conjunto de comportamentos aprendidos em que cada um está inserido.

 

Hoje, interpretar sonhos é incentivar a livre associação de idéias para cada elemento que aparece no sonho, colocando-o no contexto da vida do sonhador. Muitos estudiosos dos sonhos concordam que eles são mensagens, avisos e informações do inconsciente e que deveriam ser ouvidos e entendidos. E ainda que os sonhos servem ao autoconhecimento, à orientação para inúmeras decisões na vida, à compreensão mais profunda das situações e das reações das pessoas com que convivemos. Isso sem mencionar alguns alegados "poderes da mente" de prever o número da mega sena e o futuro de alguns negócios.

 

Para a compreensão da atual abordagem, vejamos o seguinte exemplo de sonho e sua interpretação:

 

Estou numa fazenda. Vejo as plantações e um largo caminho de terra entre diversos canteiros. Adiante, nesse caminho de terra, vejo um arbusto com muitas folhas e "sei" que ali tem uma cobra. Sem medo vou até o arbusto e quando chego bem perto uma cobra ergue-se diante de mim e acordo assustadíssima. Sonho de L.M.H., set.de 1983.

 

A análise do sonho se faz obtendo respostas do sonhador às seguintes indagações:

 

Qual a aprendizagem da sonhadora sobre os elementos do sonho: fazenda, caminho de terra, canteiros, arbusto, cobra?

 

Qual a aprendizagem da sonhadora quanto às emoções presentes no sonho? Emoção do sonho como um todo? A ausência de medo, mesmo sabendo que há algo como uma cobra? E a emoção de susto com a cobra se erguendo de repente?

 

Quais as associações da sonhadora quanto às suas ações no sonho? Estar numa fazenda. No ver os canteiros? No ver o caminho de terra? No ver o arbusto cheio de folhas? No saber da presença da cobra? No ir até o arbusto? No ver a cobra erguer-se subitamente?

 

A riqueza das associações livres com esses dados é extraordinária, pois levam a um aprofundamento do sonhador em seu mundo subjetivo e nos afasta definitivamente dos dicionários de sonhos, em que o sonhador iria diretamente ao substantivo "cobra" e encontraria explicações do tipo "sabedoria"; "símbolo da medicina"; "traição"; "sexo masculino", etc. com exclusão dos demais elementos acima listados, com uma perda irreparável da riqueza do sonho.

 

Acrescenta-se agora e com muito maior clareza, a vida do sonhador no dia anterior ao sonho e no período em que o sonho aconteceu. A esse passo chamamos de contextualizar o sonho. No exemplo que estamos examinando, L.M.H., bem casada com um filho de 5 anos, trabalhava como secretária de uma empresa, não percebia, a princípio, nada de sua vida nesse período que tivesse a ver com o sonho. As associações livres com cada elemento a fez lembrar de alguém, um homem,  que, numa conversa muito agradável por telefone, a convidara a visitar uma fazenda nos arredores da cidade... Perceber os canteiros ela associou com o seu gostar do ambiente de fazenda e de seu desejo de realmente ir desfrutar dos ares do campo... O arbusto lhe pareceu aquilo que esconde algo errado ou perigoso... A cobra ela associou definitivamente como ‘traição’ afetivo-sexual... Percebeu que durante a conversa ao telefone com aquele homem ,ele tinha uma voz  máscula, envolvente e que se sentiu curiosa a respeito dele... Associou que momentaneamente se sentiu tentada a dizer sim e de ir visitar a tal fazenda, mas que bloqueou esse impulso e encerrou o assunto... Foi algo momentâneo, sem maiores conseqüências. Entretanto, ela mesma percebeu que o sonho lhe dava uma informação ou aviso que ela mesma colocou na frase: SE EU FOR A ESSA FAZENDA VOU TRAIR MEU MARIDO.

 

O fato dela  mesma ter chegado a essa conclusão é, talvez, o mais gostoso, o mais interessante e o mais importante na atual estratégia de interpretação dos sonhos, ou seja: é sempre o sonhador que o interpreta. Claro que há a ajuda do especialista ou de um roteiro passo a passo para se chegar lá, mas pára por aí: a interpretação pessoal tem um valor real e bem mais profundo, pois está no íntimo da vida emocional e cognitiva do sonhador.

 

Mudando para o assunto, Incubar sonhos, este é focalizar a mente para sonhar com algo de seu interesse, lembrar do sonho e interpretá-lo. Resume-se em dar a explicação de como fazer essa focalização para os interessados em usar seus sonhos como instrumento de orientação na vida.

 

Para se incubar sonhos deve-se colocar papel e lápis à cabeceira da cama, firmando a decisão de anotá-los logo que se desperte. Isso tem que se tornar um hábito de meses para que surta efeito.

 

A auto-sugestão é outro elemento da incubação. Durante o dia, por ao menos meia hora, pensar firmemente em "vou sonhar com... (dizer com que se quer sonhar: amor, dinheiro, negócios, entender um relacionamento, etc .), " preciso sonhar com...", quero sonhar e lembrar do sonho", dentre outras possibilidades, que inculquem no subconsciente, de modo imperioso, mas sem esgares ou tensões desnecessárias, o comando de vou sonhar com..., vou lembrar do sonho, etc. Há uma dosagem certa deste procedimento para cada pessoa, sendo difícil fixá-la à priori.

 

Em nossa pesquisa registramos  oito passos para a interpretação dos sonhos  e elaboramos, inicialmente em fita cassete, que agora está em CD, uma indução para Incubar Sonhos  que pode ser quer um roteiro de auto-sugestão, quer  de auto-hipnose, segundo a sensibilidade do usuário.

 

A estratégia dos oito passos foi auto-aplicada em 708 sonhos registrados durante dezoito anos seguidos, e testada em terceiros por vinte e um anos, tendo sido recentemente publicada no livro Meus sonhos: a história íntima de uma vida, com os resultados obtidos.

 

(*) Autor: Joston Miguel Silva é parapsicólogo clínico e hipnólogo, mestre em psicologia, master of arts in psychology pela state university of new york, master of science level. Contato com o autor.

 
 
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